Algo que escrevi um tempo atrás, e não cheguei a postar.
E não, eu não reviso o que escrevo. É pra isso que serve editor.
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Há anos Leonardo cuidava de sua avó, uma simpática velhinha que vivia em um apartamento com nove gatos. Inicialmente com uma ajuda financeira, e a medida que ela perdia suas funcionalidades, com as tarefas mais básicas. Quando recebeu uma oferta de emprego vantajosa em outra cidade, a boa senhora já estava presa a uma cadeira de rodas, silenciosa, apenas seus olhos sempre seguindo o lânguido passar dos felinos.
Leonardo não hesitou e aceitou a proposta, arranjando uma enfermeira que aceitasse o pouco que podia pagar para que sua avó não necessitasse em nada. A rotina acertada com a nova empregada, mudou-se.
Voltou um mês depois, cansado mas cheio de contentamento. Encantara seus novos patrões, e via a possibilidade de uma carreira brilhante à sua frente. Também via à sua frente a porta trancada do apartamento, e um silêncio apenas ressaltado pelo toque da campainha que soou sem resposta.
No lugar que havia deixado a chave reserva, haviam duas, idênticas. A porta abriu com um assobio, a pressão interna e externa se equalizando, e o fedor acumulado de gato escapando pelo corredor. No escuro da sala, vinte olhos dourados brilharam na direção da porta.
Havia uma carta fechada no aparador próximo a porta, dentro dela um modesto maço de dinheiro e um bilhete da enfermeira. Recebera uma proposta irrecusável em outra cidade, e devolvia o pagamento adiantado junto com um pedido de desculpas. O bilhete datava de três semanas atrás.
De sua avó, nada encontrou, além de suas roupas dobradas no armário, o mais vago cheiro do perfume de rosas que usara toda a vida, e os silenciosos passos de gatos gordos.
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